sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Autismo grau 5

Ao pó retornaria de bom grado quando do apagamento do irmão valente. Não sou bicho, não sou instinto, sou ente de mel, faca e pão. Alguns Zés se olha os dentes, mas os meus são limpos e brancos. Quero cravar meus dentes na mulher de leite, açúcar (mascavo) e espigas de açafrão, mas sou de mel e somos impossíveis. Madeira ruge, madeira range, é do irmão valente a mulher de leite, no leite da união dos corpos, e o meu quarto sozinho e fraco, o meu quarto calado, balanço prum lado, balanço pro outro, num vaivém comiserado, e os dentes vazios de ventres macios, são limpos e brancos os dentes vazios, limpos, brancos e vorazes na vertigem do vácuo sem fim, violentos na sua busca desde já fracassada e infeliz, assassinos de esperanças vãs e desfechos contentes. Cravo os meus dentes no meu braço até fazê-lo sangrar. Desespero de só conseguir viver dentro de mim. Não sei a cor dos olhos alheios, não sei o tom dos lábios, o gosto do beijo, o jeito da boca. Eu não olho pra ninguém, eu não olho por ninguém, eu não oro por alguém. Minhas pessoas são sem rosto, e em vez ganham força as veias do pé e o contorno das costas, é estranho ver o avesso do mundo. Madeira ruge, madeira range, quero sangrar o irmão valente e ver as gotas escorrerem bonitas e vivas no branco da parede até a última, quero sujar os lençóis com o que há de rubro na mulher de leite, não, quero que sejam felizes para sempre lavando meias encardidas e limpando filhos de ofício, ou não. Quero pra mim as meias e os filhos, quanto mais encardidos melhor, mas minha mulher de leite nem olhos tem, ensaio o dia inteiro uma palavra absurda para dizer a ela, mas todo dia não consigo nem ao menos descobrir se sorri ao me ver, ou se descontenta, quanto mais cravar-lhe os dentes, quanto mais beijar sua boca. Madeira ruge, madeira range, quero entristecer o chão com os golpes fortes da cabeça do irmão valente, até poder contar os dentes soltos no veludo do tapete, quero tapar os ouvidos da mulher de leite para silenciar seu choro e cobri-la de mel, faca e pão todos os dias, enquanto bichos imundos, bichos do chão carregam os dentes do irmão valente para subterfúgios escuros. Mas não posso. Não posso, pois é a mão do irmão valente que segura meu ombro quando a noite vem me buscar, são as linhas de seu corpo viçoso que me seguram quando o chão se torna aquoso custoso incerto, e as pessoas por demais ingratas, são os tons graves de sua voz que me contam coisas pequenas, pequenas e encardidas, mas que me fazem mais vivo quando sua risada vibra nas paredes tão brancas do meu quarto pequenino. Quero então que seus dentes se percam no branco da mulher de leite, que ela o esqueça sem choros ou acasos, e que só tenha olhos para mim, por mais que eu nunca consiga ver os olhos dela. Madeira ruge, mas não range. Um dia devolverei o irmão valente ao pó e tomarei para mim a mulher de leite.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Escassez

Então, esse é um exercício de atualização e melhoria de um texto que já escrevi, o Silêncio Árduo. Sem mais delongas, aí vai:

Sou o vento que corre ríspido sopra lívido desfaz amantes. Sou o vento que toca argento o peito, desvela a nudez santa, a faz imunda na cama, o vento da vergonha do sexo do silêncio do sexo do desgosto do sexo. Sou o vento que desfolha ramos de acerto e identidade, que dobra e entorta correspondências e boas lembranças. Sou o vento que arrasa inocências e que inunda os mais alvos colchões. Sou o vento que irmaniza paixões e irrompe em laços sagrados. Sou o vento que destrói argumentos e arregaça mentiras, sou o vento que mata matilhas. Sou o vento que enviesa bandidos e desbarata ladrões – de leitos e seios. Sou o vento que enfia suspeitas ao pé da cama e entala taras em gargantas secas. Sou o vento que entulha perguntas. Sou o vento que coleciona defeitos. Sou o vento que empapa sorrisos e emplastra vontades. Sou o vento que evoca absurdos. Sou o vento que dilacera saídas. Sou o vento que esfacela pedidos. Sou o vento que desfaz tentativas que diminui os esforços que desmente os abrigos. Sou o vento que divulga incertezas sou o vento que embaralha os lençóis. Sou o vento que fere a fagulha que marca as nascentes que entalha a pele das gentes. Sou o vento que força a derrota. Sou o vento que sangra os regalos os regatos os regaços. Sou o vento que cala as coisas que têm gosto de coisas. Sou o vento que enfila que enfurna que enforca. E que devora. Sou o vento que separa as bocas descola os corpos apaga a luz. Sou o vento que uiva pelo corredor escuro aberto vazio. Destroços. Sou o vento das mãos que dizem adeus.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Aquário

Achei uma chave suja no chão
Numa praça de girassóis desfalecidos
Amarelados
Esmaecidos
A carne da chave embrutecida
Jogada num fosso de cal
(Perdem-se as coisas na lua de Aquário)
Não há melodia pruma chave perdida
Não há clamor
Não há paixão
Mas há frios de frestas fechadas
E o ardor coral do homem bom
Arautos cantam a praça enfartada
Circuitos apagam a lama dos pés
Das bocas
Da insônia
Tantas portas depravadas e obscenas
Tanto lixo na madeira afogueada
Na fechadura o vácuo de um ato
Hostil
Entortado
Certos medos não cabem na chave
Certas chaves não cabem no afeto
Pensei que a chave abria um coração
A porta em que se encaixa é torta e esquecida

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Instruções urbanas

Segundo texto do exercício "jogos urbanos", em que o jogo é o tema central. Sem mais delongas, aí vai:

O jogo é imutável e necessariamente para dois jogadores. Um terceiro, quarto ou quinto, mesmo que ansiosíssimos para participar, terão que esperar uma próxima rodada, sendo o critério para escolha dos jogadores a proximidade geográfica. Não há empate jamais, mas sempre um vencedor sonolento e um perdedor emburrado, que depende da boa vontade alheia para conseguir certo nível de conforto, o que já não faz parte das regras do jogo e aqui não será abordado, sendo apenas motivação individual. O perdedor pode participar de quantas outras rodadas quiser, desde que se encaixe no critério de seleção de jogadores, sendo o seu número de participações totalmente irrelevante para o resultado final da rodada. Observação: o aspirante a jogador pode mudar de lugar quantas vezes quiser, de acordo com a boa vontade dos que o cercam, mas não pode jamais forçar uma rodada, sendo esta aleatória e imprevisível sempre.
Não há número pré-definido de rodadas, mas sendo o jogo a disputa por um lugar sentado no ônibus, certas circunstâncias permitem avaliações precisas. Às seis, da manhã ou da noite, o número de rodadas cresce exponencialmente, aproximando-se do infinito. Às duas, da manhã ou da noite, o número de rodadas decresce drasticamente, podendo atingir o zero absoluto (não há obrigação de jogo jamais e aquele que quiser muito jogar deve simplesmente buscar circunstâncias (dês)favoráveis).
Não há também restrições quanto ao sexo, raça, idade ou crença dos participantes, sendo os únicos eliminados automaticamente do jogo aqueles já previamente sentados, dos quais, no entanto, não se deve ter pena, por francamente se encontrarem em situação muito mais confortável do que a dos jogadores.
Quanto ao quesito idade, contudo, há certas faixas etárias extremamente favoráveis ao jogo, que em nada infringem a regra. O que se conveniou chamar “juventude”, por exemplo, em muito tendencia a disputa e facilita a vitória, devido a maior rapidez, flexibilidade e força.
A faixa que mais se beneficia, todavia, é aquela que se conveniou chamar “velhice”, em razão do quesito “pena” que exerce influência tanto sobre o outro jogador, tornando-o um perdedor quase certo, quanto sobre o indivíduo que se levanta, gerador da rodada, podendo mesmo fazer com que o jogo seja suspenso caso este destine seu lugar ao jogador mais velho. Um lugar previamente indicado para alguém por aquele que se levanta não é um lugar sob disputa e, portanto, não configura situação de jogo.
Outras circunstâncias também podem vir a cancelar a rodada, sendo a maioria destas provenientes do indivíduo instalado ao lado do assento que vaga. Algumas das mais comuns são a circunstância olfativa, a circunstância de perigo imediato e a circunstância de atestado de insanidade.
Ainda a respeito do indivíduo que se levanta, sua maior responsabilidade sem dúvida é não estabelecer nenhum tipo de contato (gestual, visual, factual) com os jogadores, inserindo, caso opte por desobedecer a regra, uma sugestão de predileção que contamina a rodada e outorga um vencedor. No jogo verdadeiro, o resultado é dos mais imprevisíveis.
A questão do ambiente é talvez a de maior importância para o jogo. O momento ideal para a realização do mesmo é aquele em que há duas fileiras de pessoas no vão central do ônibus, podendo uma versão mais extrema ser jogada com três. A possibilidade de quatro fileiras não é prevista na regra, por ser um delírio fisicamente impossível.
Existem outras circunstâncias igualmente capazes de extremar o jogo, como o verão ou a distância percorrida pelo ônibus. Nestes casos, recomenda-se cautela a jogadores amadores ou iniciantes, visto que certas regras passam a ser solenemente ignoradas, como a de suspensão da rodada caso o indivíduo que se levanta destine previamente seu lugar a alguém. Mesmo a regra essencial do jogo, a de dois jogadores por rodada, passa a ser desconsiderada, enfiando-se um terceiro, quarto ou quinto em rodada que não lhes cabia, numa clara atitude de falta de fairplay.
Infelizmente, o sindicato dos árbitros do jogo entrou em greve há muitos anos atrás, devido a uma querela a respeito da aposentadoria prematura por condições insalubres, ficando o cumprimento ou não das regras sob responsabilidade do bom senso de cada jogador.
Uma última palavra, a respeito de fairplay. É de bom tom que o jogador vencedor da rodada ainda hesite um pouco antes de tomar o lugar, reconhecendo a importância e a qualidade do outro jogador para a rodada. Mas atenção! O gesto gentil de hesitação não deve se prolongar por mais de dois segundos, caso contrário o jogador perdedor poderá interpretar que o lugar continua sob disputa, iniciando uma nova rodada.
Assim é o jogo, que muito se assemelha a uma dança das cadeiras em que o prêmio maior é a própria cadeira.

Primeiro andar

Então, este é o primeiro texto dos dois que escrevi para o exercício "jogos urbanos", cujo objetivo, obviamente, é descrever jogos cotidianos que ocorrem em espaços urbanos. Neste, o jogo em si é pano de fundo da história. Sem mais delongas, aí vai:

É tão pequeno que as únicas linhas marcadas no corpo são a do cotovelo e a do joelho, tênues ainda. Eu, só no rosto, eu, só na testa, possuo centenas de arabescos infinitos, caminhos carvados para habitantes invisíveis tentando chegar sabe-se lá aonde com seus carrinhos de mão (não são permitidos aos moradores cutâneos os veículos motorizados). Suas casas são violetas, vermelhas e azuis, enquanto a testa de meu neto é ainda terra virgem terra vasta terra brava que de tão lisa e arredia ninguém ousou ainda desbravar.
Ele ri, sacode as mãozinhas rechonchudas, bate os pezinhos no banco e puxa a minha pele sem viço.
- Vovô, mais um bi bi azul!
A brincadeira é a de contar os carros de uma certa cor, por falta de criatividade minha e da vontade de comer do menino. A cada carro da cor escolhida, mais uma colherada de comida. É cada coisa que se inventa hoje em dia. No meu tempo, e não estou em absoluto contando vantagens, era uma colherada de comida ou a vara de marmelo de mamãe. Era o tempo do jogo de pião na rua, brincadeira boba também, em que poucos carros havia, e todos sempre muito pretos. Contar carros azuis seria insanidade temporária, assim como deixar comida no prato, garantia de uma noite de soluços chorosos. Eu acendo uma vela para mamãe e outra para o pião bravio.
Hoje já não se sabe o que é pião, mas tantos são os carros azuis. Tantos são os carros de cores sem nome de nomes estranhos. Tantos que as rodadas são curtas, e logo precisamos escolher outra cor, porque meu neto já não sabe dizer o próximo número. E com tão pouco se alegra o meu neto. E tão genuína é a sua alegria quando outro carro azul dobra a esquina, uma alegria que a maturidade já não me permite. Um dia também meu neto achará uma grande bobagem contar carros, mas hoje ele se alegra de um jeito que poucas coisas agora me fazem tão sinceramente feliz. Poucas e necessariamente tão extraordinárias que às vezes a felicidade nem vem, distraída pela força da dúvida.
E que coisa engraçada é o amor de neto, talvez o mais espontâneo. Filho é coisa nossa, coisa de víscera, que o cheiro condiciona o amor. Neto não. Meu neto não é meu, tem apenas ¼ dos meus genes indiretamente cedidos que não se manifesta nem nos olhos nem nos cabelos nem no jeito de andar, um ser alheio, um ser estranho, tão diferente de mim quanto as crianças dos castelos de areia que eu vejo na praia e não sei o nome. Mas eu não as amo e amo o menino, tão diferente tão diferente de mim, meus genes devem ser quietos e hão de morrer de desgosto, mas eu ainda anseio pelos afagos de meu neto.
- Vô, depois de vinte vem o quê?
- O mistério, menino, o mistério.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Minério

Estrangula a pedra
E faz com que o arcanjo
Escreva com giz

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Cegueira

Acabou a luz justo quando. Justo quando dei a falta de ti. E é sem vontade e é com clareza e é com perdão que as bordas foscas da tua face tomam os meus dedos cristãos, tua cara borrada coube entre dois dedos meus. Dois dos meus dedos mais macios para o teu ombro sem ângulo e teu nariz sem jeito. Você enxugava os meus últimos beijos. Arrastava os pés porque te doía o chão fremente, esse chão fascista, você costumava dizer. E por onde andas agora? Por onde vão teus pés calejados de costume? Dou pela falta de ti, pelo teu silêncio que me invade, pela tua ausência que viola toda a santidade. Dou pelo cheiro do vazio, pela falta de estampas, pelo excesso de fatos. Teu vão de gracejos e eu me engulo inteiro. Teu rosto puído, em P e B, teu rosto banal, teu rosto tão belo. Os lençóis se enlutam de ti e as paredes lamentam bobagens singelas. As frestas exalam perfumes gravíssimos, eu me prendo a cada uma. Vago pelos cantos de ti, pelas tuas esquinas, pelos meus desconsolos. E me perco. As tuas bordas me escapam e restam apenas alguns fios de cabelo em dissonância. Teu fantasma é frio teu fantasma é feio esse teu me cansa. O que é teu me cansa. Enlouqueço. Procuro sinais procuro saídas procuro procuro procuro não sei procuro você. Encontro tuas linhas, tuas parcas linhas, tuas poucas linhas, e uma foto displicente de ti. Bichos de pedra bichos de cal bichos de pó rimam cantigas nossas, enquanto teu fantasma (tão branco) se ri. Seguro tua foto entre dois dedos meus que te estrangulam e abro tua carta apagada. Justo quando a luz acabou.

sábado, 1 de agosto de 2009

SEG/QUA

A primeira vez que o vi tive certeza de que iria levar meu dinheiro celular carteira documentos cartões um pedaço da minha alma. A roupa muito velha e esfarrapada, a pele suja, os pés descalços. Ele estava assim meio oculto atrás de uma parede recuada, num pedaço de universo estreito e mal-iluminado, transpirando frustrações. Quis sair dali, mas uma obra estrategicamente bem posicionada (para ele) me impedia. Aos tolos, o destino. Continuei no meu passo lento e mundano, resignada a fazer mil-e-uma-ligações quando chegasse em casa para cancelar mil-e-um-objetos-serviços-comodidades. Me aproximei, cheia de medo e fúria. O rapaz, contudo, me afrontou com seu descaso, coçou a cabeça, mordeu um pedaço de pão e rabiscou umas linhas nuns papéis esparsos. Passei, meio receosa de um movimento súbito, e ainda pude vislumbrar um homem afagando a cabeça de uma criança em seus papéis. Olhei para trás ainda algumas vezes, meio desconfiada, enquanto ele, muito concentrado, me presenteava com a sua mais nítida indiferença. Ah, bem, então nunca mais vou vê-lo.
Mas daí a dois dias (aquele era um caminho da minha rotina freqüente), lá estava ele de novo, no exato mesmo horário, mais ou menos. Me irritei. Voltou a sensação desagradável, atenuada, mas claramente perceptível. Mais uma vez passei receosa, e mais uma vez ele me ignorou solenemente, enquanto desenhava balões de hélio e hesitações. Notei que o desenho era belo e mentalmente mandei o moleque se foder.
Religiosamente, entretanto, eu experimentava o mesmo rito de passagem toda segunda e quarta (não sei porque nunca me ocorreu atravessar a rua antes de chegar a obra). Entre múltiplas mutabilidades e estranhos constantes, seu rosto era familiar e pontual todas as segundas e quartas, e sempre iluminado pela luz artificial nº 2 do poste que piscava. Pouco a pouco, meu receio (apesar de fadado a nunca se extinguir) foi perdendo a intensidade e o motivo. Achei que pudesse ser tudo um jogo para ele me assaltar mais desprevenida e depois achei que isso não fazia o mínimo sentido.
À medida que o receio abrandava, crescia a minha atenção a seus desenhos. A cada dia que passava por ali (e agora já fazia questão de não atravessar a calçada), percebia mais detalhes, mais expressões, mais matizes, as linhas tão tênues e firmes, as sombras convincentes, as formas contundentes. Talento e técnica no moleque que dormia na poeira do chão e comia as migalhas de outrem. Todas as segundas e quartas, um sopro de admiração e respeito.
Um dia, bem quando eu fitava as linhas de pó de seu rosto, ele olhou pra cima, encarando-me. Percebi uma sombra de reconhecimento, logo disfarçada. Voltou-se novamente para os desenhos. Quis falar alguma coisa, mas tudo me pareceu muito estúpido e sem propósito pra dizer a alguém tão diferente de mim. Segui o meu caminho, resignada. Todas as segundas e quartas, eu tentava encontrar a frase de efeito ideal para dizer em uma fração de segundo, e sempre desistia porque já era tarde demais, olhando-o com um hiato amarrado e insatisfeito. Ele sempre me olhava de volta, meu cabelo era roxo e minha concentração, tremenda, mas também parecia em falta de vogais. Acenos com a mão e a cabeça estavam terminantemente proibidos entre nós, e o ideal era esconder o reconhecimento como se fôssemos dois estranhos olhando-se por coincidência, ele que já era meu velho conhecido. Dinâmica tácita.
Me lembro do dia em que descobri que ele tinha fala. Não lembro da hora, da temperatura ou do dia do mês, mas lembro que era noite e que a voz dele não era nem grave nem aguda, nem alta nem baixa. Guardava pouca semelhança aos trejeitos do mendigo que era e se aproximava muito daquela com que ele me respondia quando conversávamos internamente. O desenho era o de um rosto desdentado, concluído até a metade mais ou menos.
Eu já o avistava sob o halo branco da lâmpada, buracos de pele na camisa suja, enquanto ele me olhava de um jeito fixo abismal entre nós dois, éramos tão fortes e cabisbaixos. Imergi seus olhos em escuridão e enxergava apenas os olhos, perguntando-me as conseqüências de fechar o abismo da desconhecença e falhar a estranheza.
Ele me disse de repente que a rua estava fechada e que não tinha passagem que não tinha passagem por ali não por ali, que por causa da obra, era por causa da obra que por ali não tinha passagem, que tinha que dar a volta e atravessar, voltar tudo e contornar pelo outro lado que só pelo outro lado que dá só pelo outro lado meu Deus, mas que saco meu amigo, pois é também achava um saco era isso que achava, um saco, e um problema pra todo mundo um problema à toa um problema à toa, já não dá nem mais pra andar por aqui né amigo, pois é já não dava não, uma merda desculpe o palavreado, mas já não dava não não não dava não, e ele tinha tanta fome, tanta fome meu Deus, era um problema pra ele também um grande problema pra ele também também um enorme problema porque o dono daquela lanchonete ali bem ali dava pão e arroz e feijão e biscoitos e mais pão muito pão, e agora ali bem ali também estava fechado por causa da obra, era por causa da obra, que estava difícil muito difícil de arrumar o que comer e hoje já não tinha almoçado já não tinha almoçado hoje não sabia o que fazer não sabia não sabia, mas sabia que não queria sair dali bem dali, e o corpo pouco e a cabeça fosca, imagina minha senhora os moradores agora você imagina, pois é.
Ficamos em silêncio suspenso enquanto eu catava moedas e notas quantas fossem possíveis. Guardara as suas vogais e eu as minhas vozes para ornamentá-las todas de uma só vez. Por confiança de olhar as moedas redondas, murmurei que achava seus desenhos muito bonitos, enquanto entregava o dinheiro. Ele agradeceu e disse que eu escolhesse um deles para mim e eu escolhi o incompleto. Sem surpresa ou indignação, datou a folha e me deu. Quis saber seu nome, mas ele sorriu e disse que desconhecidos se conhecem melhor e que as pessoas com nome fazem tanta falta às vezes meu Deus. Afinal concordei e segui meu caminho, pedindo febrilmente a reabertura da lanchonete e o fim daquela obra vulgar, mas acima de tudo a reabertura da lanchonete sim senhor.
Toda segunda e quarta passo por ali e é ali que ele está, sempre no mesmo lugar. Aceno com a cabeça e esboço um sorriso, desejando ser capaz de muito mais. Queria poder me jogar no chão e espernear e gritar o exímio artista que ele era, me esgoelar e chorar e arrancar os cabelos e acender um incenso meditar jejuar até aparecer por acaso alguém muito influente que o tirasse da rua e montasse para ele um vernissage em Nova York. Queria poder ser atenta e furiosa. Mas toda segunda e quarta me contenho e me poupo do ridículo porque sei que tá bom menina, exímio artista ele é, sim, pena que nasceu mendigo.
Toda segunda e quarta eu continuo a acenar apenas.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Réus primários

Somos todos tão bons, senhor, sim, somos todos direitos descentes auto-suficientes e belos, senhor meu bom senhor, e acima de tudo tão bons e acima de tudo tão belos, somos boníssimos, senhor, somos tão bons, e eu sonho recorrente com meus dentes caindo, senhor, e eu sonho recorrente com uma bonequinha pútrida, veja meu bom senhor, porque somos tão jovens e fortes e doces, leves como ambrosia, e incapazes tão incapazes acima de tudo absolutamente incapazes de tal coisa, senhor, eu culpo os dentes da bonequinha pútrida e a vontade incandescente de Tom, que agora já não está mais entre nós, senhor, eu culpo os sonhos levianos, sim, esses os verdadeiros culpados, senhor, porque nós somos tão bons e os sonhos tão belos enganam, não somos velhos, não somos bêbados, mas somos livres e calados, senhor, e tementes como soldadinhos de chumbo, é com cautela e sensatez que arrancamos a pétala agora e sempre, meu bom senhor, e não arriscamos o frege jamais. Somos ativos, ariscos e atentos, tudo com zelo e cuidado, veja senhor, e às vezes gostamos de sonhar. Somos todos os inventores do fogo e da hora à nossa maneira, estou tão cansado das minhas unhas cor de anis e das minhas esperanças embotadas desbotadas emborcadas encardidas, senhor, assim como o Tom cansou-se de esperar o mato crescer pra viver, meu bom senhor, e cansou-se também da dor de dentes agudíssima que experimentava às terças-feiras. Estamos todos dançando a música velha que toca o seu gramofone, senhor, e acima de tudo somos bons todos os dias da semana.

sábado, 11 de julho de 2009

Dúvida

Não entendo como as pessoas podem ter tanta fé em Deus e tanta descrença na humanidade.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Sem título

Fui posta nesse mundo para sustentar sobre os ombros os sofrimentos dos outros. Sei disso agora. Não que esse seja todo o meu objetivo aqui, mas é uma parte relevante, auto-proclamada, visível, e muito visível, não é preciso procurar.
Logo eu, uma pessoa tão sensível e frágil e vulnerável, com as estruturas mancas. Mas terrivelmente forte demais. Sei sempre como lidar, sempre como ouvir, e me portar, e quase nunca peço licença porque é demais pra mim. Nunca para mim. E o choro e resfôlegos dos outros me fazem sempre querer chorar também e poder partilhar um desmorono, mas sou sempre para os outros, sempre sempre para os outros e me contenho e sigo em frente, ajeitando ruínas alheias. E se por acaso penso infimamente em mim mesma durante esses espasmos de fraquejo e humanidade de outrem, nem preciso que apontem a falha, pois a seguir me condeno e me torturo duramente, obrigando-me a me subtrair mais uma vez. Não posso falhar nenhuma vez, nunca nunca, ou serei para sempre tachada de fraca e para sempre carregarei a marca em mim e isso é tão tão triste e injusto, porque os outros não me devem nada e eu sou sempre para eles, tenho que ser tenho que ser tenho que ser.
Nunca na minha vida eu encontrei alguém que pudesse fazer por mim o que um dia certamente já fiz por esta pessoa. Ou: nunca me permiti mostrar que preciso de ajuda na mesma profundi(dade) honesti(dade) serie(dade) com que ajudo os outros, porque também eu tenho o direito de ser um perigo ambulante. Ou: já o fiz algumas vezes e em todas quebrei a cara porque só recebi um apoio torto e frio e partido que não corresponde at all com o que preciso e aí desisti de pedir ajuda. Não sei. Talvez a minha capacidade de ajudar seja mesmo maior que a dos outros e eu esteja pedindo uma equivalência impossível. Mas tenho quase certeza que não. Acho que os meus problemas às vistas dos outros são sempre mesquinharias, sabe-se lá por quê. Tenho quase certeza de que não o são de fato, e às vezes tenho mesmo certeza. Mas tudo que me é próprio e que me causa dor para eles é menor e sem importância. Talvez não consigam, como eu consigo, enxergar para além de si uma angústia um sofrimento um desespero autênticos. Talvez coloquem na balança e pensem que não é tão difícil assim e por isso me ofereçam apenas algumas palavras parcas e mal-cuidadas, quando colocar na balança é uma violência tão grande, tão tão grande e um ato sem nome covarde e será que não o percebem? Como é possível não perceber?
Talvez, e isso se define cada vez mais em mim, acreditem que a minha tristeza seja apenas um ato falho, uma cena falsa e até meio cômica, uma máscara rude e mal-disfarçada. Porque se impôs de fora pra dentro sobre mim essa visão de que estou e sou, I am, sempre sempre tão dolorosamente feliz, tão terrivelmente feliz. Minha felicidade é um fardo que eu carrego, e a minha alegria mais profunda e tremenda. Sou grata por ter me sido dada a chance oportunidade circunstâncias para que eu pudesse ser feliz. Imensamente grata. Mas lamento o fato de que os outros não acreditem nas minhas infelicidades, lamento terrivelmente. A tristeza em mim é vista como uma incapacidade, sou uma deficiente de tristeza aos outros. Ninguém crê na minha tristeza, ninguém ninguém crê nessa parte de mim. É tudo uma farsa cômica que faço para diverti-los, eles pensam ao rir, e no entanto são esses os momentos em que me sinto mais autêntica e real e humana e próxima do que me é próprio e ninguém considera, ninguém me considera, ninguém me conhece e estou tão sozinha, ai meu Deus. Recentemente uma amiga disse que a palavra única que melhor me descreve é “alegria”. Para a maior parte das vezes e dos tempos, ela está certa. Mas nos momentos em que isso parece tão tão distante de mim a ponto de não me pertencer, nunca há ninguém ao meu lado. E por isso aquela palavra ecoou em mim com tanta incerteza.
Sou a rocha de todos que me cercam. E onde diabos foi parar a minha rocha? Se esqueceram de me contar onde ela se escondeu, e agora anda por aí a esmo tentando me encontrar, enquanto eu me dilacero em fissuras e choro baixinho pra ninguém escutar, que piada cósmica cruel. Talvez essa imagem de “ser imune à tristeza e à fobia” seja mesmo o que eu acabe passando sem querer, ou propositalmente por orgulho, mas estou ficando factualmente cansada de me esconder e grito aqui o que eu sempre quis dizer. Porque a minha tristeza é tão só. Sempre por detrás de portas fechadas e com um pranto murmurado e socado pra dentro de mim, sempre sempre assim. Minha rocha é uma folha de papel em branco ou um fantasma paciente e simpático que por ventura se digne a parar e ouvir minha história. Mas fantasmas não respondem, e que bom que não, e eu acabo sendo a rocha de mim mesma. Impossível. Venho ruindo em grãos de areia desacarinhados e procuro alguém para ajeitar as minhas ruínas. Será que me expondo os outros se mostrarão aptos, os outros se mostrarão desejosos de suportar a minha dor de fato? As vezes em que quebrei a cara contando com a presença apaziguadora de outrem me tornaram descrente e cínica. Eu, que odeio acima de tudo o cinismo e que acho todos tão belos. E a minha tristeza é tão só, ai meu Deus, e a minha alegria perde um pouco do brilho e do valor a cada vez que choro só, como se fosse a máscara que os outros escolheram para mim, sua zona de conforto fora da qual é insuportável viver, e não sabem agir, não podem agir, não querem agir.
Fui posta nesse mundo para sustentar sobre os ombros os sofrimentos dos outros. E por que não me deram ombros mais fortes, meu Deus? Onde hei de encontrar os ombros para descansar os meus sofrimentos, meu Deus? Agora me sinto tão vazia.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Out of the blue

Segundo exercício: descrever uma cor para um cego. Escolhi o azul. Sem mais delongas, aí vai:

Out of the blue
O azul é o gosto da framboesa, é o abraço apaixonado de despedida, é a mão cálida que afaga, é o cheiro da nostalgia, da saudade e da felicidade plácida, o calor suave de outono nas pálpebras, a brisa morna da primavera, é o calafrio medroso, a dor pálida e surda, é um ranger de dentes indeciso, é um carinho árduo, é o som dos carros na madrugada, é a cor da boa sorte contida e do azar respeitoso, é o silêncio caótico e o caos contemplativo, é a boa vontade do estranho, é o verso que não clama mas chora, é o primeiro pássaro a anunciar o dia, é o pranto dúbio, o beijo acostumado, um gosto sem rumo, é o abraço lúcido, é uma certeza branda, uma indiferença terrível, a cor da morte discreta e da vida tranqüila, do fogo que queima devagar, do ínfimo átimo de retesamento, da água que se bebe por hábito, da música com cheiro de memória, da força que se resguarda, das calças boca-de-sino, é o fingimento declarado, a verdade mentida, a chuva fina e decidida, a face que estanca o grito, é a cor da fumaça de devaneios, anseios e crenças, das crianças confundidas, de incestos voluntários, de sangues insólitos se esvaindo devagar, de violências calculadas, de vítimas concedidas, de luzes críticas, das roupas nítidas, bocejos rudes, quimeras francas, fervor tardio, final feroz, amor contido, amor medido, amor demais. O azul é o som dos primeiros passos no asfalto e o peso de um homem no chão.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Devaneios

Hoje à noite tive um sonho magnífico de beleza profunda, em que eu recitava um poema próprio todo rimado, lindo, lindo, de imagens impactantes e sentimentos profusos, sensações intensas e múltiplas. Acordei, e só pude me lembrar de que tive o sonho...

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Só pra constar...

Fui escrever um comentário num blog de uma amiga e recebi a seguinte confirmação em letras estranhas: cough. Em época de gripe suína, não achei graça...

A sã

A língua cigana que me desfruta e me devora e que depois vai embora, que depois vai embora, se perder em outras bocas vis e mal-acabadas, o sorriso áspero que me descarta o carinho e me despe desdém, cachos enluarados barba ríspida toque torto, me despe desdém, e a fala pastosa, a fala pastosa debochando de quem não me quer bem, debochando de mim de si, debochando da beleza inocente, me despe desdém, vem cá, me roça o seio, mas ele limpa meu beijo, limpa mil beijos, se limpa de mim, se endireita e segue em frente, o que você quer, meu bem?, e a vida continua e eu faço o café, se livra de mim e se entorta em outras vidas se arranha em outros nomes se aperta em outros lares se morde em outras camas se acha em outros corpos, se perde de mim, pra longe de mim, despe desdém outrem, um tapa na vida de quem não me quer bem, beijo seco, fome extinta, luz silêncio, ser em espera, alumiado debruçado, dependurado, pressinto presumo pergunto, mas o sol há de vir, enfim o sol há de vir, um outro alguém, vida larga, aberta, escancarada, o sol há de derramar seus raios, sangue pulsa, sangue rubro no chão, sangue pérola me envolve, sobre mim, sobre mim, tudo é vida e desejo, vida e vontade, vida e anseio, sobre mim, sobre mim, passo faminto, passo fagulha, passo fascínio, falácia de morte, sobre mim, sobre mim, até que o sol se desfaça em noite que devore o disfarce, aqui estou, meu bem, cético escândalo, my beautiful disaster, de volta em meus braços, me despe desdém, querido arrepio, me despe desdém, doce suplício, me despe desdém, morte arranjada, me despe desdém, mel das falácias fálicas, se deita ao meu lado, por onde andou, meu bem?, se enfia no beijo, se cala no feito, se entranha no seio, se finge entre mim, me afaga desdém, me afoga desdém, sou os sonhos mudos na fumaça que ele exala, o sonho desfeito, caminho no fim e faço o café, já não sou mais de mim, se o corpo na sarjeta do homem sem luz.